terça-feira, novembro 24, 2009

Serve este artigo de Luis Fernando Verissimo para que percebamos que as mulheres de facto gostam mais do enigma do que da realidade...

O tapa-olho

A Suzi já tinha aparecido no grupo com um físico nuclear que impressionara a todos não com seu conhecimento mas com sua fome. Já tinha aparecido com um toureiro cearense, uma condição nunca bem explicada. E um dia apareceu com um homem de tapa-olho. Moreno, estatura mediana, seus trinta e alguns anos e um olho tapado por um rectângulo preto. Apresentou:
- Turma, este é o Cliomar. Cliomar, a turma.
Oba. Oi. E aí? Muito prazer. Etc. E o Cliomar sentou-se em meio a uma saraivada de perguntas, todas, claro, provocadas por aquela curiosidade, que a maioria só conhecia de filme de pirata: um tapa-olho. O que você faz? É daqui mesmo? Qual é o teu clube? Perguntas e mais perguntas. Menos a que todo o mundo gostaria de fazer mas não sabia se devia:
- E esse tapa-olho?
Depois, a Suzi contou que ele não gostava de falar no tapa-olho. Só uma vez se referira a "esta minha tragédia", apontando para o olho tapado, mas não entrara em detalhes. Outra vez dissera "tive uma vida movimentada, como você pode imaginar", e também apontara para o olho tapado, mas deixando os detalhes da sua vida movimentada para a imaginação da Suzi. Que estava apaixonada. Nunca conhecera um homem assim. Nem o ventríloquo alemão. Nem o ex-padre que não escolhia hora ou lugar para fingir que mordia seu pescoço, fazendo "nham!". Alguém perguntou:
- E você não aproveitou quando ele estava dormindo para olhar em baixo do tapa-olho?
- Tá doido! - protestou a Suzi. E completou: - E quem diz que nós estamos dormindo juntos?
Se a Suzi não estava dormindo com o cara queria dizer que o caso era sério. E a turma entendeu o entusiasmo da Suzi pelo Cliomar. Ele era mesmo atraente, com aquele seu ar misterioso, com aqueles seus silêncios cheios de implicações, com aquele seu tapa-olho. Toda a turma estava fascinada por ele. O Márcio, que trabalhava numa editora, chegou a sugerir que Cliomar escrevesse alguma coisa sobre suas experiências, sobre os lugares em que andara e as aventuras que vivera, só não dizendo "sobre esse tapa-olho" em respeito à sua discrição em tratar do assunto. Que só aumentava o seu mistério.
Cliomar apenas sorriu com a sugestão do Márcio e disse:
- Não sei se o mundo está preparado para as minhas confissões...
Que histórias ele não teria para contar!
No outro dia, a Suzi apareceu sem o Cliomar. Desanimada, fazendo beicinho, desiludida da vida. Contou:
- Aconteceu.
- O quê, Suzi.
- Dormimos juntos.
- E aí? Como é que foi?
- Foi bom. Só que...
- O quê?
- Ele tirou o tapa-olho para dormir, depois de me fazer jurar que não espiaria o que tinha em baixo.
- E aí?
- Hoje de manhã acordou, se distraiu e botou o tapa-olho no outro olho.

Texto publicado na edição do Expresso de 21 de Novembro de 2009

2 comentários:

Ana disse...

Nós queremos a realidade, alguém real, mas realmente o enigma, o mistério...fazem cócegas, mexem, torna-se, por vezes sensual, e atrai-nos pelo bichinho da descoberta. Acaba por ser romântico.
Há dias vi um filme que me fez lembrar este texto, mas não sei o nome porque perdi o inicio.
Uma realidade com mistério, e descobrir o outro um bocadinho todos os dias, isso sim era o que gostava de ter neste momento.

Pekenina disse...

Concordo com o comentário anterior. Gosto da descoberta constante e desbravar caminhos todos os dias. Ir conhecendo aos poucos. O interessante é que só haverá desilusão se criarmos expectativas :)

Beijinho