sexta-feira, abril 10, 2009

O paradoxo egoísta do amor

Diz-se que o amor para ser completo tem de ser partilhado. Temos que dar para receber. E nessa altura tornamo-nos exigentes e em última instância egoistas. O amor numa escala maior que a amizade, exige tempo, dedicação, atenção, carinho. Porque os amigos, tal como a família, estarão sempre lá. Sabemos que podemos estar sem ver um amigo ou um primo durante dez anos que ele continuará a ser o amigo ou primo. E o Amor? O Amor alimenta-se de dias, de toque, de constância. Ou será que não? Será que um verdadeiro Amor sobrevive às esquinas de tempo, à inclemência da distância, ao perigo da intermitência? Acho que sim. Um verdadeiro Amor, sim. Resiste até à passagem de outras pessoas pela nossa vida. Porque o nosso corpo é egoista, exige a presença física de alguém, mas o coração é ainda mais egoísta porque alimenta-se e sacia-se com uma determinada pessoa. O ser humano tem vários amores ao longo da vida. O coração engana-se algumas vezes, pensado que encontrou a pessoa certa. Depois compreende que não, chora e procura outro. Porque o ser humano não consegue abdicar do Amor uma vida inteira. Algumas vezes pode não encontrar a metade da sua laranja, a sua cara-metade, o outro corpo da sua alma. Outras descobrem tarde na vida, ainda que a tempo porque basta um dia de Amor partilhado para que uma vida sem Amor seja esquecida. Outras ainda descobrem-na quando estão comprometidas e tem então duas hipóteses: honrar os compromissos anteriores com o consolo que descobriu a sua cara-metade ou romper com os compromissos porque não se consegue ser leal à pessoa com quem se está quando o coração sabe que existe outra que o faz sentir mais completa.
Lembro muitas vezes Gabriel Garcia Marquez e o seu "El Amor en los tiempos del cólera". Ele conseguiu captar a essência de todos os paradoxos que aqui falei. Florentino e Fermina vivem um amor juvenil, febril. Dir-se-ia que tinham tido a sorte de ter encontrado o Amor ainda jovens. Mas não! As circuntâncias da vida tinham outros desígnios. Para ela o casamento com Juvenal Urbino. Um casamento de sentimentos estáveis e duradouros que resistiu 50 anos e apenas sucumbiu com a morte. Para ele inúmeras mulheres, anotadas num caderninho que matavam a fome do corpo mas não da alma. E por isso passados mais de cinco décadas, Florentino decidiu declarar o seu Amor pela segunda vez. Fermina não resistiu ao apelo que o seu coração adormeceu. E juntos comumgaram do resto dos dias e as intermináveis viagens do vapor.
Por isso já afirmei noutra ocasião a diferença entre a fidelidade e a lealdade. Por muito que se queira não se pode enganar o coração...

6 comentários:

Bombokinha disse...

O homem dos mil blogs!!!
Gostei do post ;)

Francisco del Mundo disse...

Bombokinha, se fossem assim tantos ainda tinha mais dificuldade em escrever em todos...:D
Beijo

Ps-Já dei um pulo ao teu...

Pipoca disse...

És o primeiro homem com quem me identifico a falar de Amor. Gostei muito de descobrir o teu blogue. Um bejinho
Pipoca dos Saltos Altos

Lívia disse...

Bela descrição do Romance do Garcia. Parece estar bem em contacto com as suas necessidades e sentimentos, se alguma vez virar guru do amor e leccionar workshops, eu inscrevo a minha cara-metade.

Francisco del Mundo disse...

Pipoca, ora ainda bem...:D
Beijo

Francisco del Mundo disse...

Lívia, bem-vinda! Antes de tudo, prefiro que me trates por tu..:D Depois, ainda bem que gostaste do blog. Por fim, espero que participes no desafio..
Beijo